Bebeto Alves em 3D

Com o lançamento do Pacote "3D", conseguiste reunir as "pegadas mais marcantes de tuas botas"?

Creio que sim, apesar de terem ficado fora músicas muito importantes dessa trajetória. Mas, de todas formas , nesse primeiro momento, creio que o set list cumpre a sua função e abrange uma boa parte dessa produção. Daria para fazer um volume 2, com certeza.

Com mais de 30 anos de carreira, o que mudou na relação entre músicos, intermediários e a indústria fonográfica?

Na verdade para quem cumpre com uma tabela no mercado que se costumava chamar de independente, a única mudança é que não há , hoje, nenhuma possibilidade de negociação com o mercado fonográfico. Já gravei discos de forma independente e depois negociei com gravadoras. O maior entrave seria de que hoje os artistas são seus próprios produtores e para isso é necessário investimento. Ou recorre a projetos e busca financiamento através dos mecanismos disponíveis, ou desembolsa de suas próprias economias. O lado bom é que você acaba competindo de igual para igual com as ditas “majors”, tendo um controle maior sobre as vendas e também os ganhos são maiores. Mas, é bastante limitado pelo aspecto econômico. Se você consegue equlibrar isso tudo, parabéns, tudo pode dar certo. Pelo contrário, a vaca vai pro brejo. É o risco de produzir nesse país, de investir em seu próprio trabalho.

Enquanto Autor, qual a percepção sobre o contexto econômico-cultural brasileiro?

Do meu ponto de vista isso é bastante complexo pois, no momento em te tornas produtor evidentemente colaboras com uma cadeia produtiva, por assim dizer, usando uma expressão em voga nas políticas públicas para a área, mas, isso é uma informalidade, não existe, de forma estabelecida, esse mercado e, ele,a grosso modo, se confunde com o mercado do entretenimento. Vivemos num país em que a televisão dita o que deve ou não ser visto , ou escutado, de uma maneira geral e não conseguimos escapar disso. E mais ainda seria a concentração de investimentos via leis de incentivo no eixo Rio/São Paulo,acentuando um pouco mais essa distorção. O contexto portanto é caótico e necessita de uma revisão nas formas de investimento público, já que, o mercado do entretenimento com uma aura de cultural, ditado pelos veículos de comunicação, alija a maior parte dessa produção no processo.

A volta do vinil: com a forte adesão à cultura tecnológica, vivemos meio reféns de um obsoletismo high-tech. Teremos o prazer de ouvir novamente um bolachão teu?

Acho que a “volta” do bolachão é uma tentativa de diversificação no suporte, de ganhar mercado pelo exotismo, uma espécie de fetiche, ou, ainda, um marketing das cias de disco. Não vejo como ele se tornar um produto de consumo numa sociedade tremendamente tecnológica e informatizada. Ele vai acompanhar nichos de mercado, experts, como todo o resto. Hoje, para se fazer um disco em vinil vai se pagar muito mais caro do que fabricar cds. Como a gente sabe todos os esses suportes estnao com seus dias contados. É dificil prever. Mas , respondendo a tua pergunta, bolachão meu só se encontrares em algum sebo.

Como sentes a questão autoral no Brasil. Duelo ou alelo ao avanço tecnológico?

Eu não sei se entendi a pergunta mas, acho que estamos vivendo um momento bem dificil nessa questão da propriedade intectual ou do patrimonio autoral. Nós, autores, estamos sendo ameaçados no nosso ofício e no nosso direito patrimonial garantido pela constituição brasileira. Por um lado um lado um movimento de inocentes úteis dando tiro do próprio pé, pelo outro uma orquestração dos inadimplentes que se recusam a pagar o que é nosso, por direito garantido. Associados fazem coro difamando o ECAD e com isso justificando o download gratuído ou, o fim da arrecadacão, o que quer dizer: o fim do ofício de compositor, de autor, de inventor e tudo mais.
E para piorar a situação o estado resolve intervir, através do MINC numa tentativa de “moralizar” essas relações. Ora, a ingerência do estado no que é privado é uma usurpação do poder constituído, em mais um momento de excessão. Uso o exemplo da câmara dos deputados ou do senado: sabemos que tem um monte de larápios, ladrões, cafajestes, gente da pior espécie usurpando a representação do povo brasileiro, mas, te pergunto: vamos fechar o Congresso Nacional? O Senado Federal? Óbvio que não. Sabemos todos que o ECAD tem problemas, que tem falhas no seu sitema de arrecadação e distribuição, temos que buscar soluções, pois sem ele, ou com as propostas do MINC ou, voltaríamos a uma espécie de barbárie, ou ainda, servindo ao estado absoluto a seu bel-prazer. E, muito mais.


Dez discos para levar para uma ilha-deserta-sem-wireless:

TRANSA – Caetano Veloso
CAMINHANTE NOTURNO – Mutantes
ELETRIC LADY LAND – JIMI HENDRIX
HURRICANE – BOB DYLAN
EXILE ON MAIN STREET – ROLLING STONES
RUBBER SOUL – THE BEATLES
LED ZEPPELIN – LED ZEPPELIN
EXPRESSO 2222 – GILBERTO GIL
MILAGRE DOS PEIXES – MILTON NASCIMENTO
LITTLE BUDDHA – RYIUCHI SAKAMOTO

Por Flávia Bento