Renato Godá, sonoridade cativante para embalar marujos

Briefing do currículo, passagens importantes:

Em 2009, depois de lançar seu primeiro EP, Renato Godá ganhou projeção internacional em uma elogiada turnê pela Europa, onde seus shows inclusive entraram na cobiçada lista dos favoritos da revista inglesa Timeout, que o comparou a Serge Gainsbourg e a Leonard Cohen e classificou sua música como um “apetitoso caldeirão que mistura sons de cabaret, jazz, folk e chanson”.

De volta ao Brasil, Godá entrou em estúdio para gravar um novo álbum, que acaba de lançar, batizado de Canções para Embalar Marujos. O disco foi produzido por Plínio Profeta, que carrega no currículo um Grammy Latino por seu trabalho com Lenine.

Godá, que transitou pelo punk rock e pelos sons eletrônicos no passado, encontrou uma sonoridade própria neste que considera seu primeiro disco. Seguindo seu estilo despretensioso, a gravação das 13 faixas do álbum aconteceu em apenas dois dias de estúdio, tocadas ao vivo. Os músicos ensaiaram apenas uma vez e tiveram de improvisar. Godá queria uma sonoridade natural e crua. “Não gosto de discos ´limpinhos´ do universo pop, não combinam comigo, gosto do primeiro take, não quero regravar voz... Até por isso levei para o estúdio o Roy Cicala, que captou o som deixando vazar o barulho da chuva, das conversas...”, diz Godá, referindo-se ao lendário engenheiro de som americano que trabalhou com John Lennon, Frank Sinatra, Jimi Hendrix e Miles Davis, entre outros.

Um dos compositores mais talentosos da nova geração, Godá dedica especial atenção as suas letras. Suas composições de amor e ódio e o canto quase declamado/despretensioso/descompromissado retratam os sentimentos mais autênticos que movem as pessoas de qualquer tempo e de qualquer lugar.
Alguns dos melhores músicos do país acompanham o cantor na gravação do disco e em sua nova turnê: Emerson Villani (Titãs, Funk Como Le Gusta), James Müller (Jorge Benjor, Rita Lee), Marcos Romera (Simonal, Elba Ramalho), e Zé Nigro (Otto, Céu, Titãs, Lobão).
Os figurinos dos shows, que remetem às melhores épocas da cena jazz de Nova York, e os instrumentos acústicos (piano, acordeom, banjo, bateria e violão) e as referências musicais de Renato Godá estranhamente parecem soar como novidade nos dias de hoje. “Como compositor gosto de andar na corda bamba entre o brega e cult”, diz Godá, que assume as influencias musicais do passado, como a musica cigana do Leste Europeu.

Sem dúvidas, o "cuidado cênico" cativa e fideliza o público que está sempre ávido por novidades inteligentes. Como foi concebida esta ideia?

Gosto de palco e sou muito detalhista quando penso num show. Mas devo assumir que este cuidado cênico, que você se refere, é um processo mais orgânico do que racional no meu caso. Gosto de desenhar pessoalmente os meus roteiros, imaginar a luz, os figurinos, etc, mas principalmente de me divertir em cena. Portanto os improvisos são necessários e extremamente bem vindos.

Enquanto Autor, qual sua percepção do contexto econômico-cultural brasileiro? Traçando um comparativo com os países por onde passou, onde estamos e para onde deveriam ser "embalados nossos Marujos"?

Acho que neste momento, no meu segmento, com a crise do mercado fonográfico, as leis de incentivo, assim como os editais, são boas soluções para viabilizar a produção de bons espetáculos. Porém acho pouco. Mas como não costumo ficar reclamando das coisas, não sou do tipo que espera acontecer, na grande maioria das vezes acabo produzindo na raça mesmo. Em relação a outros países, acho que o Brasil tem uma dificuldade muito grande em associar educação e cultura. Tratam como assuntos distintos, mas no meu modo de ver, estão diretamente ligados. A cultura depende da educação, assim como a educação depende da cultura. Se eu fosse o capitão do navio, conduziria nesta rota.

A volta do vinil: com a forte adesão à cultura tecnológica, vivemos meio reféns de um obsoletismo high-tech. Teremos o prazer de ouvir um bolachão teu, acompanhando as letras com o encarte em uma mão e a piteira na outra?!

Adoraria. É meio que um sonho de infância, mas infelizmente, por enquanto, não há planos de produzir um vinil.

Como sentes a questão autoral no Brasil. Duelo ou alelo ao avanço tecnológico?

Sou favorável ao avanço tecnológico. Acho a internet uma ferramenta incrível para se pesquisar música, e para que novos artistas possam apresentar seus trabalhos ao grande público de forma democrática e sem intermediários. Graças a internet minha música se espalhou pelo Brasil, pude tocar na Argentina, na Europa, e por várias cidades brasileiras.

O mais legal é perceber, que depois da grande onda de loucura do "free download", as pessoas voltaram a se interessar em comprar o CD, com encarte, foto e tudo mais.


Dez discos que levarias para uma ilha-deserta-sem-wireless:

Teria muito mais de dez, mas...

I'm Your Man – Leonard Cohen

Transformer – Lou Reed

American Recordings – Johnny Cash

Rain Dogs – Tom Waits

Bonnie And Clyde – Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura – Roberto Carlos

Construção – Chico Buarque

Cartola - Cartola

I Like Jazz: The Essence of Billie Holiday - Billie Holiday

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band – The Beatles
 

Por Flávia Bento.