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Tecnologia: E o som saiu do disco
26/12/2010 / Jotabê Medeiros

E o som saiu do disco

Maiores mudanças na música nos primeiros dez anos do século são de natureza tecnológica: iPod, iTunes, MySpace, iPad, YouTube...

Na música, é meio consenso que não houve um artista individual nos noughties (a primeira década dos anos 00) que possa levar o título de artista da década. Os anos 1990 tiveram o grunge do Nirvana, e a música eletrônica se fez massiva, tornando o DJ um astro planetário. Mas, na década inicial deste século 21, o maior fenômeno foi tecnológico, na forma de distribuição e disseminação da música. O download ilegal, o comércio virtual, o iPod, o iTunes, o YouTube, o MySpace, o Spotify, o estúdio doméstico dentro de um laptop.
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Dezenas de artistas chegaram ao estrelato a partir de uma página no site, como a cantora Katy Perry

Em 23 de outubro de 2001, a Apple Inc. lançou o objeto que se tornaria o maior símbolo da era de áudio digital compactado, o iPod - cujo nome, ensina a Wikipédia, é a sigla de "Portable On Demand", o "portátil desejado" (com o "i" na frente, eu em inglês, adquiria o sentido de "o portátil que eu desejo/desejei" ou "o portátil que eu sempre quis"). O primeiro iPod tinha um disco rígido de 5GB e armazenava discotecas inteiras na mão, e essa capacidade só foi crescendo, começando a absorver fotos e outras funções.

O iPod se disseminou como fogo em mato seco, uma euforia de consumo mundial. "As pessoas já não eram mais escravas de um disco", anotou o site Pitchfork. No rastro de um tocador de áudio digital compactado, vinha a segunda etapa compulsória: a comercialização de toda a música existente em arquivos digitais (o MP3, compressão de áudio com perdas quase imperceptíveis ao ouvido humano, estabelecera essa nova ordem). Criou-se a loja virtual iTunes, e as formas de comercialização convencionais de música (CDs, DVDs) entraram em vertiginoso declínio.

Políticos. A crônica política passou a se interessar pelas playlists de chefes de Estado, como Hugo Chávez e Barack Obama. Descobriu-se, por exemplo, que no iPod de Obama, presidente americano, Bob Dylan e U2 pontificavam, assim, como Aretha Franklin, Miles Davis e The Fugees. A revelação, divulgada como grande segredo de Estado, foi do jornal The Daily Telegraph. Com o escândalo da divulgação de documentos secretos pelo WikiLeaks, nos últimos meses, essa dimensão da internet como fonte alimentadora cresceu barbaramente.

Não por acaso, foi eleito CEO da década o empresário Steve Jobs, da Apple, criador das revoluções iPod, iTunes e agora o iPad. Jobs, que se afastou da empresa por alguns meses para tratar de problemas de saúde, passou a integrar a lista dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Com fortuna avaliada em US$ 6,1 bilhões, ocupa a posição de número 42 no ranking elaborado pela revista Forbes.

O iPod, símbolo da década, chega ao final do período em declínio, já engolido pelos celulares modernos, os smartphones, que, além das funções de áudio portátil, também dão acesso a e-mail, conexão Wi-Fi e bluetooth (transferência de dados). O iPhone veio com o anúncio de que muita coisa iria para o museu em muito pouco tempo. O atestado de óbito do iPod foi assinado em 2007, quando à sua utilidade foi juntada à do telefone celular.

O MySpace se tornou uma forma de divulgação musical que viria a substituir as antigas estratégias da indústria do disco. Dezenas de artistas chegaram ao estrelato a partir de uma página no site, como foram os casos de Lily Allen, Katy Perry. No final, a invasão de música de péssima qualidade também levou o mecanismo ao declínio.

O YouTube também se juntou a esse esforço massivo de divulgação sem regras estabelecidas, no início. Vídeos se tornam virais em horas, criam fenômenos e fazem artistas tornarem-se globais em pouco tempo, como aconteceu com Justin Bieber e Susan Boyle, participante de um reality show inglês. Mas a velha questão persiste. "O YouTube divulga principalmente vídeos preexistentes, a memória do vídeo, e não se produz com frequência exclusivamente para essa mídia. É o problema: quem paga? Mas sei que nos últimos 5 anos houve bons diretores ao redor do mundo produzindo só para essa mídia, e procurando formas de financiamento de seu trabalho. Se há um interessado em ver, há um interessado em produzir e pagar por isso", disse ao Estado o cantor Alex Kapranos, da banda Franz Ferdinand.

Todas essas tecnologias mudaram a relação de forças entre artistas e mercado, entre acesso à arte e disseminação da arte. Entretanto, não houve um dado estético com o mesmo nível revolucionário no período. A partir de 2007, quando o Radiohead lançou seu disco In Rainbows pela internet, dizendo que os fãs deveriam pagar por ele o que achassem justo, a pergunta-chave passou a ser: "Como o trabalho do seu artista preferido virá à tona a partir de agora?" A música sem "materialidade" poderia sustentar a existência material dos artistas que a produziam?

Em 2002, uma tentativa de aliar os shows de TV à capacidade arregimentadora da música levaria à criação do Pop Idol, o primeiro reality show de calouros - uma febre na década. O primeiro foi lançado por Simon Fuller no Reino Unido, e logo se tornou uma franquia interplanetária, com programas como Ídolos, Popstars, American Idol, etc. Artistas como Kelly Clarkson e Carrie Underwood emergiriam dali. "A triunfante coroação de um novo vencedor é também o fim daquela narrativa que o forjou", escreveu Tom Ewing, falando sobre o fenômeno.

A nova ordem teve reflexos também na reflexão e divulgação da música. Muitas revistas de papel fecharam as portas, assim como as grandes cadeias de lojas de discos (Virgin, Tower Records), supermercados da música do passado. No ano de 2009, fechou um derradeiro símbolo da era do disco - a Virgin Records de Times Square, reduto da turistada da Big Apple. Paulatinamente, fecharam todas as lojas Virgin, grandes butiques de música que viveram seu auge na era do CD - os discos passaram a ser comercializados incidentalmente em lojas de departamentos generalizadas, como a Best Buy. Por outro lado, bandas grandes, como o U2, passaram a lançar seu novo disco também em vinil, mercado retrô que cresce, paradoxalmente. Enquanto isso, bandas como Metallica e Aerosmith defendiam o game Guitar Hero como a tábua de salvação das bandas de rock (logo, sobreviriam também os games Rock Band, Dance Dance Revolution e outros).

 

Fonte: O Estado de São Paulo