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Ambiente: Selo Verde, Green Buildings
10/09/2010 / Daniela D'Ambrosio

"Selo verde" americano se tropicaliza
 

Um dos campeões mundiais de desperdício e perda de materiais na construção civil, o Brasil é também um dos países que menos se preocupa com a demolição e ainda dá pouca atenção à acessibilidade na hora de erguer um prédio comercial. Esses e outros quesitos passarão a ser contemplados na certificação mais famosa do mundo para prédios verdes. O certificado americano Leed, concedido pela ONG Green Building Council, que sempre adotou padrões globais nos 41 países onde atua, vai considerar também aspectos regionais na concessão dos selos.

No Brasil, a entidade assinou, na semana passada, um memorando formalizando novas recomendações para que os prédios brasileiros possam ser considerados verdes. São recomendações e não itens obrigatórios - estes continuam sendo os mesmos para o mundo todo - que levam em conta características próprias e específicas do mercado brasileiro. "Só queremos um certificado, mas que reconheça as diferenças regionais e culturais", disse, em entrevista ao Valor, Scot Horst, vice-presidente sênior do Green Building Council dos Estados Unidos. O Leste Europeu e países nórdicos passam pelo mesmo processo.

Os itens que, se considerados, passam a contar pontos para obtenção do certificado são: a redução de até 10% nas perdas de materiais de construção, adoção de medição individualizada de água, aquecimento solar, adoção das normas ABNT de acesso à pessoas com necessidades especiais, projeto e construção já contemplando a futura demolição e um relatório de impacto ambiental mais elaborado. "São ítens importantes para melhorar a eficiência do uso", acrescenta Nelson Kawakami, diretor-executivo do Green Building Council Brasil.

O Brasil tem hoje 190 projetos em fase de certificação e apenas 18 prédios já certificados, sendo apenas um com o grau máximo (platinum) - são quatro tipos de selos. Embora o número de prédios já considerados verdes ainda seja pequeno no Brasil, o número de edifícios em fase de obtenção do selo verde quadruplicou desde 2007. Os projetos incluem lojas, hospitais e universidades, mas 90% ainda são prédios comerciais.

Scot Horst reconhece que o número ainda é baixo. "Poderia ser muito maior, mas já é um bom começo", afirma o americano que esteve no Brasil na semana passada para o Green Building Brasil Conferência & Expo, que reuniu mais de mil pessoas em São Paulo. "As certificações são um indicador importante da adoção de boas práticas e de uma nova maneira de pensar", diz Horst. "Antes que um prédio seja transformado, as pessoas envolvidas já se transformaram."

A distância entre o discurso e a prática ainda é um desafio, embora a preocupação com o tema seja crescente e a discussão esteja mais madura. O apelo "verde" ganha mais peso a cada dia, é verdade, mas o marketing que se faz em torno do assunto e os fatores econômicos ainda são relevantes. Em média, as construções verdes têm um custo entre 5% e 10% maior na implantação, mas o custo de operação pode ser reduzido em 20%, podendo chegar a até 40%. "É uma combinação entre interesses sociais, financeiros e do meio ambiente", diz Horst.

Outro desafio importante está na indústria de materiais de construção. "Essa é a parte mais complicada hoje", admite Horst. "A competição levou as empresas a aprimorarem seus processos porque a exigência de produtos verdes cresceu muito", completa. A indústria de tintas e vidros está avançada, mas ainda há materiais cuja procedência precisa ser bem avaliada e até certificada, como a madeira e a areia. Calcula-se que cerca de 60% dos recursos naturais extraídos são usados pela construção civil.

Na pauta do Green Building também estão a Copa do Mundo e a Olimpíada de 2016 - que foram vendidos para o mundo como eventos sustentáveis. "Quando fez a sua apresentação ao Comitê Olímpico Internacional, o Brasil garantiu que o que fosse construído seria certificado", diz Kawakami. Segundo o executivo, ainda não houve registro de certificações, pois o comitê está em fase de planejamento estratégico. Em relação à Copa, existem quatro estádios já registrados para obter o selo, Manaus, Brasília e Cuiabá e o Mineirão e outros cinco revendo seus projetos para conseguir a certificação, entre eles o Maracanã.

A Fundação Vanzolini, da USP - outra certificadora de prédios verdes no Brasil, além do Green Council, que optou por adaptar a metodologia francesa ao país -, também lançou no Brasil uma certificação para arenas e complexos esportivos multiuso.

Notícia veiculada na fonte em 09/09/10

 

Fonte: Valor Econômico