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Cinema: Bilheteria x Pirataria
06/09/2010 / Eliane Sobral

"A pirataria pode levar 20% das nossas receitas"

Patrícia Kamitsuji, da Fox Film do Brasil

O longo período de hibernação do cinema brasileiro - registrado a partir da década de 80 - parece finalmente ter chegado ao fim.

Nos últimos dez anos, todos os indicadores desta indústria registram aumentos expressivos. O número de tíquetes vendidos saiu de 70 milhões, em 1999, para 112,7 milhões, no ano passado. O faturamento acompanhou o ritmo: se em 1999 foi de R$ 357 milhões, em 2009 alcançou R$ 970,4 milhões. Números que poderiam ser maiores, não fosse a falta de salas de exibição e a pirataria, lamenta Patrícia Kamitsuji, que há quatro anos preside a Fox Film do Brasil. Na opinião dela, o download de filmes na internet tem sido mais nocivo à indústria do que as barraquinhas dos camelôs. Acompanhe:

DINHEIRO A pirataria é um dos grandes problemas da indústria. Quanto os estúdios perdem com isso?

Patrícia Kamitsuji É difícil precisar quanto perco com a pirataria. Dependendo do público, pode ser mais ou menos. Se é um filme com perfil de público masculino mais jovem, que são os que mais fazem download, as perdas podem chegar a 20% da bilheteria. Quando o público é feminino, menos acostumado com isso, as perdas são menores.
 
 
DINHEIRO A internet lhe causa mais problemas do que o camelô?

Patrícia Sim, hoje o camelô da esquina não é o meu problema. A internet é bem pior.
 
 
DINHEIRO O que fazer para coibir isso?

Patrícia Acho que precisava ter uma ampla campanha de conscientização. Muitas pessoas acham que, se está na internet, não é crime. É preciso mostrar que copiar da internet é ilegal e é o mesmo que comprar do camelô.
 
 
DINHEIRO Empresários de vários setores estão chamando a atenção para a falta de infraestrutura no Brasil. O mesmo acontece na indústria do cinema?

Patrícia Não tenha dúvida. O maior sucesso do cinema atual é Avatar. Nos países em que o lançamento aconteceu em mais de 200 salas, a receita passou dos US$ 100 milhões. Aqui não chegamos a 100 salas. Foram 94 salas, para ser mais exata, e o faturamento foi de R$ 102,8 milhões. Não faturamos mais porque não existiam salas 3D suficientes para atender à demanda. Há público disposto a pagar mais para ver um filme em três dimensões. Para se ter uma ideia, quando lançamos A Era do Gelo, em julho de 2009, eram 70 salas. E isso já era bem mais em relação a Monsters X Aliens, de março daquele ano, quando tínhamos apenas 45 salas com projeção em 3D. Hoje já temos 150 salas e chegaremos ao final do ano com pelo menos 200.
 
 
DINHEIRO Mas estamos falando de uma tecnologia específica e que ainda é nova. Não é natural que demore para maturar?

Patrícia Não faltam salas apenas para o cinema 3D. Mesmo aqui em São Paulo, não é todo bairro que tem uma sala de cinema comum. Se compararmos com o mercado mexicano, cujo perfil é bem próximo ao do brasileiro, dá para ter uma ideia melhor do que estou falando. Lá, são 4,5 mil salas, enquanto aqui são apenas 2,4 mil. E eles têm 100 milhões de habitantes. Então não dá para entender por que o Brasil não tem cinco mil, seis mil salas de cinema.
 
 
DINHEIRO Apesar da falta de infraestrutura para exibição, o Brasil tem apresentado bom desempenho em termos de receita?

Patrícia Muito bom. Em 2009, a bilheteria foi de R$ 970,4 milhões e 112,7 milhões de tíquetes vendidos. Só no primeiro semestre deste ano, crescemos 18,1% em bilheteria e 7% em público.
 
 
DINHEIRO O que impulsionou esse crescimento?

Patrícia São vários fatores. Mas, no nosso caso, o filme foi fundamental. Fomos muito bem em janeiro com Avatar. Alvin 2 fez mais de cinco milhões de ingressos. Desde janeiro a gente vem fechando com números acima do registrado no mês anterior. Em junho, mesmo com a Copa do Mundo, conseguimos bons resultados, inclusive por conta do lançamento de Encontro explosivo, com Tom Cruise e Cameron Diaz no elenco. Como fugimos da data de lançamento nos Estados Unidos, que coincidia com a Copa, conseguimos agenda para trazer Cruise e Cameron para promover a produção e isso foi muito bom. Data é crucial para o cinema em todo o mundo e é uma das variáveis para o sucesso de uma produção. 
 
 
DINHEIRO Como um estúdio define quanto vai investir numa produção?

Patrícia Em primeiro lugar, os parâmetros nascem com credenciais como diretor, elenco, efeitos que serão utilizados e data prevista para o lançamento. Dependendo das respostas a essas perguntas, já se sabe que o estúdio está apostando num blockbuster (sucesso de vendas) e os escritórios regionais, como é o caso da Fox do Brasil, se preparam para um grande lançamento. Minha primeira preocupação é reservar uma data. Por exemplo, se a Fox vai lançar o filme nas férias de verão dos Estados Unidos, é porque é um filme com grande potencial. Agora, nem sempre a data americana é a melhor para o mercado brasileiro, por exemplo.
 
 
DINHEIRO Como foi a preparação para Avatar?

Patrícia Iniciamos os trabalhos no, então, chamado James Cameron Project, com três anos de antecedência. E não é difícil entender essa antecedência. Qual era o nosso parâmetro? Esse é um filme do Cameron, o mesmo diretor de Titanic. E também é um filme em terceira dimensão. Com essas e outras informações, estávamos nos preparando para algo grandioso.
 
DINHEIRO A sra. falou que as subsidiárias assistem ao filme para confirmar se o título tem mesmo o potencial imaginado para aquele mercado. Já aconteceu de fazerem apostas erradas?

Patrícia Não é frequente, mas acontece sim. Solaris, que conta a história de um homem que vai para outro planeta e reencontra a mulher que tinha morrido na terra,  é um exemplo real. Foi lançado em 2003. Tinha George Clooney no elenco, era dirigido pelo Steven Soderbergh e, com essas credenciais, era uma grande produção. Pensamos em várias cópias, avisamos o mercado de que vinha um filme grande e que era para todo mundo se preparar. Quando assistimos ao filme, um olhou para a cara do outro e falou: Esse filme não é pipoca.
 
 
DINHEIRO O que é filme pipoca?

Patrícia Filme pipoca é aquele que todo mundo comenta, todo mundo quer ver, atrai vários tipos de público. Solaris era uma coisa mais sofisticada, uma ficção científica mais autoral. E aí, o que a gente faz? Lançamos com 200 cópias ou redimensionamos e evitamos um prejuízo maior? Apesar de termos feito um investimento grande em trailers e material promocional com tudo pago, redimensionamos para 30 cópias. Lançamos em salas mais sofisticadas e o filme, dentro dessas dimensões, não deu prejuízo. O mesmo aconteceu com Avatar, só que ao contrário. A gente sabia que era filme grande (o investimento estimado foi de US$ 500 milhões). Planejamos às cegas, com base nos dados que tínhamos recebido. Quando assistimos, pudemos respirar aliviados.
 
 
DINHEIRO Mas há sempre o risco. Grandes estúdios quebraram e outros quase foram à bancarrota por decisões equivocadas.

Patrícia Como qualquer outra indústria, tentamos minimizar os riscos. Claro que há apostas erradas, como acontece nos outros negócios, mas os métodos de análise e avaliação se aperfeiçoaram e hoje é muito difícil você ouvir o caso de algum estúdio que aposte tanto sem obter retorno que pague, ao menos, os custos de produção.
 
 
DINHEIRO Quais são as outras fontes de receitas que um filme pode gerar?

Patrícia A bilheteria de cinema é a principal delas. Mas ainda há o DVD, a tevê a cabo e depois a tevê aberta. Até um filme chegar em uma Rede Globo, em um SBT ou em uma Record, ele já se pagou. Agora, o cinema é a ponta de lança dessa trajetória e é também o primeiro sinalizador. Os estúdios são empresas que têm acionistas e precisam dar resultados. E a maior pressão por estes resultados acontece no cinema. Eu diria que o grande objetivo dos estúdios é fazer com que o cinema pague pelo menos o que foi investido em produção e lançamento. A partir daí, o que vier é lucro. 
 
 
DINHEIRO Quais são os planos da Fox com o cinema nacional?

Patrícia O potencial do cinema brasileiro é enorme e se confirma a cada ano. Tivemos grandes bilheterias com Lisbela e o prisio-neiro e Se eu fosse você. Vamos lançar Nosso lar, que será um grande sucesso, com certeza. A temática espírita está muito valorizada aqui e o filme é inspirado em uma das principais obras de Chico Xavier. Este é um filme no qual estamos apostando muito.
 
 
DINHEIRO Esses filmes religiosos têm mais apelo junto ao público?

Patrícia Para um país com o perfil religioso como o do Brasil e com a presença de tantos espíritas, este é sim um segmento de peso. E tem um componente importantíssimo. Quando você lança filmes que o público feminino gosta, o filme acontece. Mulher recomenda, mulher faz boca a boca. Você já viu um homem dizendo para outro que ele tem de assistir a tal filme, que é sensacional? Mulher adora dar dicas. Não fosse a presença das mulheres, a indústria do cinema seria outra. 

 

Fonte: Isto é Dinheiro