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Cinema, Indústria Fonográfica no Brasil
08/03/2010 / Sonoris Causa

Cinema  
Filme vai contar a história do italiano Saverio Leonetti, pioneiro na fabricação de gramofones e gravação de discos no Brasil e na América do Sul [pt]  08/03/2010

foto: Tati Senna

Nascido na Calábria em 1873,  a história de Saverio Leonetti, responsável pela criação da primeira ou segunda indústria fonográfica do Brasil, e possivelmente da América do Sul, será contada em um filme, cuja parte documental foi concluída recentemente.  O  longa  A Casa Elétrica, marca a estréia de Gustavo Fogaça, filho do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, na direção. A obra, uma realização da Okna Produções e Panda Filmes, também conta com co-produtores internacionais como Azpeitia Cine (Argentina), Costa do Castelo Filmes (Portugal) e AB Film (Itália).

Fundada em 1913, em Porto Alegre, mesmo ano da instalação, no Rio de Janeiro, da Casa Edison, A Casa Elétrica fabricava gramofones, uma das invenções mais marcantes do início do século XX. Além disso, Saverio  gravou e prensou discos, e criou o primeiro selo “gaúcho”, pioneiro na gravação de músicas gaúchas, brasileiras e internacionais.

A história de Savério Leonetti, conforme a sinopse do filme, um personagem tridimensional, é ficcionada para criar um ambiente narrativo ideal onde os fatos históricos são ilustração de uma grande história de amor e consolidação dos sonhos de um imigrante. Romantismo, idealização, bravura e pioneirismo: a mistura ideal para uma história de conquistas e sonhos, onde o embrião da cultura da América do Sul nasce das mãos de um italiano.

Acompanhe, a seguir, o texto do Arquivo Histórico do Radioamador Brasileiro sobre mais este pioneiro italiano:

No segundo semestre de 1913, instalou-se em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em uma construção com 27 metros de frente, na Rua Sergipe, nº. 9, entre os bairros da Glória e Teresópolis (distante do centro de Porto Alegre, na época) a gravadora "A ELÉCTRICA", que produzia os DISCOS GAÚCHO.

 Seu proprietário era um italiano, com 40 anos, casado, com três filhos e natural da Calábria. Seu nome: Saverio Leonetti. Sabe-se que ele esteve nos Estados Unidos e que, depois de radicado no Rio Grande do Sul, voltou à Itália, visitando parentes, quando manteve contato com seus irmãos Aquiles e Carlos, residentes em Milão. Desse encontro, resolveu se dirigir a Hamburgo, na Alemanha, onde adquiriu todo o maquinário indispensável para gravação e prensagem de disco, material e técnica da época do gramofone.

Trouxe consigo, também, Leonetti, quando de retorno a Porto Alegre, mão-de-obra especializada e ainda  uma série de matrizes alemãs, já prontas, as quais deu títulos curiosos e particulares, quando as divulgou por sua firma.

Em torno de seis anos se manteve Savério Leonetti gravando e prensando discos que eram vendidos em Porto Alegre, na sua também Casa  comercial "A ELÉCTRICA", situada na Rua dos Andradas, nº. 302, defronte à antiga Casa Masson, e que mantinha "o maior sortimento de artigos phonográphicos do Estado e único fabricante dos afamados Gramophones marca "ELÉCTRICA" e "DISCO GAÚCHO".

Ele criou  o selo "GAÚCHO", no qual aparecia um campeiro montado a cavalo num cenário campestre. A etiqueta sofreu, no transcurso da sua existência, modificações quanto ao desenho e cores.

Leonetti lançou , através das "chapas" de 20,5 e 25 cm de diâmetro, gravadas em uma face ou em duas, dezenas de composições rio-grandenses, gravando, inclusive, com grupos do interior do Estado, especialmente da região colonial alemã.

Grandes artistas do Rio de Janeiro e São Paul, além de estrangeiros que chegavam à capital gaúcha integrando Companhias do Teatro e Revista, acabaram deixando sua voz ou som de seus instrumentos na gravadora de Saverio Leonetti. Como era característica da época, no disco, se faziam anunciar pela voz do Paulinho, seu sobrinho, que gritava "Gravado para a Casa A Eléctrica, Porto Alegre".

Manteve,  ao que parece, intercâmbio comercial com gravadoras nacionais e estrangeiras, distribuindo seus discos por outros Estados, prensando matrizes não originais de sua etiqueta.

Das pesquisas realizadas, nos foi possível catalogar 326 discos com o número do selo, intérprete, gênero, dentro das características discográficas vigentes na época. Desse registro, 112 correspondem a uma numeração de um disco para duas músicas. O que vale dizer que foram arroladas 56 produções.

Dentro dos "Grupos" que gravaram para o selo "GAÚCHO" destacamos: Infernal, Bailante, Choroso, Gaúcho, Facões, Fanáticos, Lira, Cahyense, Hamburquez, Sulferino, etc.  Além de 3 bandas e diversos quartetos, quintetos e sextetos, lembramos os cantores: Os Geraldos, Arthur Budd, Duarte e Sra. Augusta, Fred Bernardi, Pitoco e outros, alguns conhecidos e aplaudidos por cariocas e paulistas, onde tinham sua vida artística principal.

Os ritmos predominantes das gravações, afora os discursos políticos inflamados de Carlos Cavaco, os Hinos (brasileiro e francês) e arranjos cômicos eram: valsa, mazurca, polka, havaneira, dobrado, modinha, fado, etc.

Merece ser registrado  um aspecto relacionado aos primórdios das gravações brasileiras: quando ainda não se havia rotulado em definitivo o rítmo "samba" para uma música, Savério Leonetti já  incluía no repertório de sua fábrica "Sambas Carnavalescos" como: Ya Ya me diga (nº. 4040); Ya Ya vem à janela (nº. 4044) e outros "sambas": Nha Maruca foi s'embora (nº. 683).

 Também chamamos a atenção para o que nos parece ser o primeiro solo de acordeon (instrumentos que o gaúcho chama de "gaita" e assim constando no selo da Casa A Eléctrica) registrado na discográfica brasileira, através das interpretações do célebre Maestro Cav. Maisé Mondadori.

    Em 1913, a Casa Edison instalava no Rio de Janeiro a primeira fábrica de discos da América do Sul - segundo o pesquisador Ary Vasconcelos. É certo que o "Disco Gaúcho" de Savério Leonetti para a Casa "A Eléctrica", de Porto Alegre, tem sua partida posta à venda em 25 de outubro de 1913.

Fica  teria a Casa Edison lançado seus discos antes dos "Discos Gaúchos"? De qualquer maneira parece-nos que Savério Leonetti instalou no Brasil, se não a primeira, pelo menos a segunda fábrica de discos em território nacional, e quiçá, no Continente Sul-americano. (Ivan - PY3IDR)



Redação revista eletrônica Oriundi
 

 

Fonte: Redação revista eletrônica Oriundi